Justiça

Rawls e a Bolsa

Hoje de madrugada, lá por volta das quatro, inventei de ler Uma Teoria da Justiça. Obra interessantíssima. E que nos últimos dias, tem passado mais noites comigo do que menina alguma no mundo passou – Atente-se ao ‘’mundo’’!

Rawls, quando a escreveu, não fez só mais uma teoria da justiça. Ele inventou de nos mostrar que mesmo em um mundo pós-metafísico, onde as grandes narrativas já não mais nos servem, vale a pena voltarmos a pensar e lançar esforços no sentido de tocarmos a nossa politeía – para ficarmos com o velho termo de Platão.

‘’O que é a justiça?’’.

‘’E o que é o homem?’’. – Também é bom que se acrescente!

Esses são dois problemas que sempre andaram juntos. São dotados de importância óbvia. Com Platão, por exemplo, eles vieram nessa respectiva ordem. E aliás, é possível que Platão só tenha se preocupado com o que é o homem – ou melhor: com o que é ”alma humana” – e, assim criado a sua metafísica, para sustentar aquela cidade que ele imaginava a ideal – a famosa ”república”, a politeía que eu falei anteriormente.

O cara fez muito! Basicamente, criou com isso a filosofia! O que significa que ele inaugurou o pensamento ocidental, a nossa maneira de pensar e fazer o mundo girar, já mirando na justiça, tema do Rawls. Platão imaginou a cidade justa como a cidade onde homem estaria no seu devido lugar. Uma hierarquia mesmo! Mas harmônica. Porque cada um dos três grupos da cidade abrigaria um dos três tipos de almas existentes. Somente assim é que a cidade não se desestabilizaria, interna e externamente.

Mas Rawls, diferentemente de Platão, não faz a sua teoria da ‘’justiça como equidade’’ baseando-se em uma metafísica. Também não faz respondendo – segundo Kant, a pergunta capaz de sintetizar todas as perguntas – o que é o homem. Rawls, surpreendentemente, joga a bola para nós. Põe-nos a imaginar onde melhor viveríamos e, com isso, diz como é que ele pode nos ajudar fazer isso melhor.

Rawls nos faz pensar: Imagine que você seja chamado para escolher o mundo onde viverá. Imagine também que você não sabe como cairá nele. Será rico, pobre? Branco, negro? Não sabe sua sexualidade, seus dotes e desvantagens. E aí? Como seria esse mundo?

Rawls aposta que, nessa ‘’posição original’’, os ‘’princípios da justiça’’ que escolheríamos, dado estarmos vestidos do ‘’véu da ignorância’’, seria os que viessem reduzir ao máximo possível a força da sorte. Ou seja, pensaríamos que mesmo que caíssemos como os menos favorecidos, teríamos uma vida satisfatória. Assim, os princípios que escolheríamos seriam os que nos concederiam um conjunto de liberdades básicas para todos nós, que os empregos e posições sociais estivessem abertos a todos sob justa igualdade de oportunidades, e que as desigualdades só seriam satisfatórias caso viessem beneficiar os menos favorecidos.

Coloco o lápis no livro e começo a rabiscar os princípios da ‘’liberdade igual’’ e da ‘’diferen…

– Miaunnn! Nau nau nauunnnn! – Escuto em forma de gritos.

Era minha gata. Gritando – e não miando. Mãe de quarta viagem, mas que agonizou e se desesperou ao ver que sua bolsa tinha estourado. Todos em casa levantam e improvisam um cantinho para a coitadinha dar à luz. Vejo sair um, dois, três gatinhos. Lindos que nem só eles! Vem-me a ideia de que a bolsa poderia ter sido a minha. E se assim fosse… o que dela sairia? Eu, que já me descuidei tanto, mas que nunca deixei de me alimentar. Que, nesses últimos, venho me cuidando melhor, indo ao médico, me exercitando. O que sairia da minha bolsa? Bolsa estourada, que ao menor valor que tivesse, nos meus sonhos se abriria e que até nossos gatinhos teriam pré-natal.

Isaias Bispo de Miranda

P.S.: Essa história continua. Pretendo fazer uma série de textos sobre a teoria da justiça rawlsiana. Mas enquanto o próximo texto não vem, que tal você desejar boa sorte aos filhotes da minha gatinha?

Por que não devemos desistir do Brasil?

Faltando alguns minutos para ser executado, um velho escutou do seu carrasco: ‘’Deseja dizer alguma coisa antes de morrer?’’. O velho parou para pensar e respondeu: ‘’Quero que chovam rosas, tulipas e margaridas! Milhões delas!’’. Foi o suficiente para, passado o espanto, o carrasco gargalhar. ‘’E o que mais você quer? Que as estrelas desçam ao mundo? Que sua mãe saia do túmulo para te consolar? Que seu pescoço não quebre e que você não sinta o gosto da morte quando estiver sufocando?!‘’, zombou. Eis que, com todo o ímpeto, o velho replicou: ‘’Também quero que para cada rosa caída, um homem possa amar em paz! Que hajam mais cidades livres que tulipas! E que os dias felizes nas vidas dos homens sejam tão numerosos quanto as pétalas das margaridas!’’. Não sei se um dia o desejo do velho se cumprirá no Brasil. Mas que certamente podemos dar um belo jardim às nossas crianças, isso Holambra nos confirma.

Isaias Bispo de Miranda