Educação

O que é que nos falta? – Um guia para os nossos jovenzinhos

”Precisamos de mais estado ou mais mercado?”. ”Não será que o nosso estado está inchado?”. ”Mas e o mercado? Ele já não vem interferindo demais nas nossas políticas públicas?”. ”Devemos deixar nosso capitalismo gerar tantos pobres e desempregados?”.

Quem conhece um pouco de Brasil, não entra em uma discussão dessas. Falta-nos tudo! Ao menos quase tudo, porque sem-vergonhice e canalhice andamos tendo de sobra.

Capitalismo, aqui, é o de compadrio. Aquele que casa bem na velha história da ‘’privatização dos lucros e socialização dos prejuízos’’. E os serviços públicos tornam-se discussão secundária quando nos deparemos que o estado brasileiro tem problemas até para cumprir sua função número um.

Falo mais sobre o estado para voltar ao ”tudo” que precisamos.

O estado, como nos ensinam no ensino médio, é o detentor do monopólio da violência autorizada. Entregamos-lhe as nossas armas e em troca ele nos mantém seguros. Juntos escolhemos o modo como devemos viver, dizemos o que é certo e errado e o fixamos sob a forma da lei.

Mas e quando as forças que deveriam cuidar de nós e nos levar à justiça acabam sendo quem nos fere e nos impede de a acessarmos? Em outras palavras: e quando achamos que viveríamos igual ou melhor sem o estado? Não é essa a realidade no Morro da Maré, na Favela da Rocinha ou em qualquer outra periferia?

Quando o estado age como um bandido, ele perde a razão de ser. Nesse momento, a própria população acaba não o reconhecendo como legítimo. No limite, nos armamos contra ele, ou seja, contra as nossas próprias armas. Lutamos contra nós mesmos. Ocorre então uma guerra civil. Uma sociedade assim leva o nome de uma sociedade ‘’em anomia’’, o que pode ser entendido como ”em dissolução”.

É evidente que todos concordamos que o estado deve ser mais que um segurança. Não dá para admitir que uma criança, um idoso, um desafortunado, tenha de depender da piedade alheia para sobreviver. Afinal, essa não é a condição de alguém que possa sair à caça, comer a carne e ainda vender o que sobrar. Mesmo que fosse, ninguém gostaria de viver em uma sociedade assim. Queremos mais. Bem mais.

Um sobrevivente é quem, antes de tudo, vive! Nossos semelhantes, independentemente de como eles caiam no jogo da vida, devem poder viver dignamente e de modo a poder desenvolver suas potencialidades. Para isso, construímos coisas básicas que, para existirem, não necessitem da deliberação de uns ou outros, muitos ou poucos. Construímos escolas, hospitais, universidades, previdência pública etc, com pretensão que todos possam usá-las. Damos-lhes o nome de ”serviço público básico”, a base do chamado welfare state ou estado de bem-estar social.

Para termos um welfare state, necessitamos de gente, muita gente, construindo escolas, dando aula, puxando a orelha de um peralta. E a maneira que as convencemos a fazer isso é trocando seus serviços por dinheiro. Trabalhando por um salário.

Mas uma sociedade não vive só de serviços básicos! Queremos o luxo também! Talvez o luxo seja até mais importante que o básico! Nossas garagens, casas, quartos, geladeiras, guarda-roupas estão sempre dizendo ”me encha sempre para eu sempre te encher de felicidade”. Compramos esses itens no mercado com o dinheiro do nosso trabalho. E o trabalho, assim, se mostra essencial para existir uma sociedade em que valha a pena vivermos .

É aqui que esquerda e direita pecam. Tropeçam nas suas ideologias.

A direita costuma dizer que, caso não queiramos um bolo de padaria para o Brasil inteiro, devemos crescer o bolo para podermos dividi-lo em pedaços maiores depois. Com a alta carga tributária, acrescentam, estamos impedindo que o nosso bolo cresça. Isso significa que não estamos tendo tanto dinheiro quanto poderíamos ter. ”Sem dinheiro, sem bem-estar social”.

A direita, nesse caso, possui parte da verdade porque erra em parte: o estado brasileiro não está inchado, mas com excesso de gordura na barriga. A bem da verdade, nosso estado está mais próximo de um excesso de pontos com gordura localizada.

Naturalmente, não é de menos capitalismo que precisamos, tal como acha a esquerda. É de mais capitalismo para mais bem-estar social! Menos capitalismo? Só se for do capitalismo à brasileira, com o nosso dinheiro indo para quem mais tem!

A sociedade brasileira, como podemos ver, não é só um bolo, mas toda uma confeitaria.

Sabendo de tudo que foi dito anteriormente, resolveremos quase todos os nossos problemas. O embate ”mercado x estado” ganhará uma forma mais útil aos que conflitam liberdade x igualdade.

Porém, por que eu digo ”quase todos os nossos problemas”? Quem estudou a Revolução Francesa na escola, lembra que o lema da revolução era liberdade, igualdade e… fraternidade! Eis o ingrediente para tirarmos nossa confeitaria da esquina e a levarmos para o Shopping Iguatemi.

Não somos só egoístas que trabalham para consumir e, mesmo que nos demos mal por algum motivo, podemos viver razoavelmente por conta de um aparato de proteção social. Envolvemo-nos em doações de tudo que é tipo. Cuidamos de projetos culturais os mais variados, com ou não grande importância social. Seja enviar dinheiro para o Médico Sem Fronteiras, ajudar que um abrigo de cães funcione ou manter um museu de videogames antigos.

É preciso salientar que isso nada tem a ver com ”neoliberalismo ou social-democracia”, ”mais ou menos estado”. Está para além dessa discussão.

Você, empresário, pode cuidar da alimentação das crianças de uma creche da sua cidade. Você, governante, pode fazer com que nossos impostos (ou parte deles) possam ser direcionados à itens de nossas escolhas (algo como um imposto inteligente*).

Por que não utilizarmos da proatividade, da vocação ao criar e ao cuidar? Por que não aproveitarmos nossa capacidade em sermos generosos?

Vivermos bem, termos uma sociedade que ajude todos a viverem bem e ainda nos orgulharmos de, mais que trabalhadores e contribuintes, sermos benfeitores. É o que falta ao Brasil. Pessimista algum botaria defeito.

Isaias Bispo de Miranda 

* A discussão acerca do tema da generosidade e como isso pode levar ao ”imposto inteligente” encontra-se na obra do filósofo alemão Peter Sloterdijk, o mesmo que aparece na imagem ao lado. Quer saber sobre o assunto? Veja Aqui!

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