sociedade

Trump 2017! Bolsonaro em 2018?

Bolsonaro é tão boçal, mas tão boçal, que condená-lo moralmente é uma perda de tempo. Ninguém diz para uma pedra sair do seu caminho. Simplesmente tira ela da frente.

Mas e quando o objeto da condenação trata-se do apoio que dão ao erro?

Se um grupo de adolescentes mimados juntam-se todos os dias só para verem o bobão da vez torcer o tornozelo ao tropeçar na pedra, dizemos ”vocês não têm mais o que fazer? Não gostam de sexo? Isso não se faz!”, certo?

Nós podemos muito bem tapar os ouvidos ao escutarmos um elogio ao torturador Brilhante Ustra ou uma exaltação ao lema dos covardes ”bandido bom é bandido morto”. Ninguém tem estômago para isso!

A coisa muda, todavia, porque isso pode sair do campo oral, das falas de meia dúzia de babacas por aí, e virar lei, política de governo.

Somos indivíduos, mas também somos cidadãos. Não dá para viver em uma sociedade onde não só nossos familiares quebrem o nariz por causa de pedras como também nossos filhos sejam incentivados a darem pedradas na cabeça de gays e negros.

O que é, então, que devemos fazer? Chutar a pedra para longe?

O lixo das ideias do Bolsonaro até podem sair da sua cabeça e irem direto para a lixeira das bolsonaretes, ou seja, para as suas mentes. Mas se depender da militância de esquerda, de lá elas ”não passarão!”. Serão confrontadas ao grito de ”sai fascista!”.

Fica a pergunta: surtirá efeito?

Se um militante de esquerda tiver de dizer para os brasileiros não votarem no Bolsonaro, dirá para não colocarmos um ”machista”, ”racista”, ”misógino” e ”homofóbico” na presidência? É isso? É isso que fará Bolsonaro perder?

Donald Trump fez campanha tão ou mais maluca e com pé no preconceito quanto o Bolsonaro sonha fazer. Contra ele saíram denúncias de assédio por tudo que é canto. Parte forte da mídia, setor da cultura, intelectualidade, Hollywood e os canhões do partido democrata atiraram para matar na sua xenofobia com os árabes e latinos, no seu desrespeito às mulheres. Ícones de peso dos republicanos rejeitaram Trump abertamente. ”Melhor o Capeta, ou seja, novamente um Clinton na Casa Branca, a Trump”, disseram.

E por que diabos até mesmo gente desses grupos atacados saíram das suas casas para votarem em Trump? Eram malucos masoquistas? Escolheram um candidato por cara ou coroa?

A democracia não é só um regime de governo. Mais que isso, ela é um braço da vida moderna. Uns preocupam-se mais com a pólis por conta de terem mais tempo livre ou seja lá qual motivo. Mas outros, não.

Não é que eles não se importem com a sociedade, com o preconceito contra a mulher, com o racismo ou com a desigualdade econômica. Acontece que a prioridade das suas vidas está na comida todos os dias na mesa, nas contas para pagar no final do mês, no bem-estar da sua família. ”Primeiro os de dentro para depois os de fora”. Lá nos EUA, como cá, esses são o grosso da população.

É verdade que na América a bola da vez estava com os outsiders. Clinton e Bush neto tinham a cara e o rabo no establishment. Foram chutados.

Mas quais foram as propostas de outro candidato, Bernie Sanders, que, segundo pesquisas, ultrapassaria a vantagem que Hillary tinha de Trump em uma final democratas x republicanos?

Maiores salários. Mais empregos. Proteção ao trabalhador. Proteção aos empregos americanos. Investimento público. Nada mais era importante. Custasse o que custar, os americanos teriam isso. Doesse a Deus ou ao mundo, ao Mexico ou à Wall Street.

Ora, a mesma plataforma de Trump, não? Bingo!

Sanders e Trump foram atacados como ”os populistas”. Um era louco e o outro, socialista. Trump e Sanders, de todo modo, fizeram campanha focando nas coisas que os americanos mais se importavam.

Em 2018, teremos pessoas que antes de se verem como “pobre”, ”mulher”, ”negro” ou ”gay”, verão-se ”chefe de família”, ”segurança patrimonial”, ”recepcionista”, ”desempregado”, ”filho do José e da Maria” e ”brasileiro”. Se quem tentar levar a presidência não olhar isso, vai perder. E feio.

Isaias Bispo de Miranda

O que será do Brasil?

Querem que aceitemos os políticos que estão aí. Temos de aceitar o roubo, a incompetência e a desonestidade porque ”político não dá em árvore”. ”E se nos transformarmos em um país governado por aventureiros?”, continuam. À essa gente, simplesmente podemos dizer: não nos subestimem! Somos o Brasil do Machado de Assis e do Villa-Lobos. Pelos nossos trenzinhos caipiras transportamos Tom Jobim e Manuel Bandeira, seja para a Gamboa ou Nova York. Por esses mesmos trilhos recebemos o que tinha de melhor em Okinawa, Frankfurt, Maputo, Beirute: suas pessoas. Não digam aos nossos mais de 200 milhões de sonhadores que não podemos fazer melhor e melhor!

Isaias Bispo de Miranda

”Japonês” dá aula de lógica a brasileiros

Lógica e educação, no Brasil, são duas coisas que nunca andam juntas. Primeiro porque algo como ”educação” e ”andamento”aqui, em uma mesma frase, é uma contradição em termos. Quanto a lógica… Bem, as consequências disso já dizem tudo, não? Mas como para todas as coisas, fora petistas e bolsonaretes, há jeito, chamaram um professor lá de Cingapura para dar uma aula básica de lógica à nossa Patria Educadora. Vejam! 

Perguntado pelo Augusto Nunes, no Roda Vida, sobre qual foi a coisa mais importante para Cingapura atingir o melhor resultado no Pisa, o ex-diretor do Instituto Nacional de Educação do país respondeu que em primeiro lugar é a qualidade dos professores, claro! Como isso é possível? Trazendo os bons alunos para a docência!

Agora já é possível imaginar uma pedagoga do Alckmin perguntando: ”Será que dar duas coxinhas e uma Pepsi ajuda?” Algumas falas dos entrevistadores foram quase assim. Acreditem! Porém, nem bem precisou ser questionado com o ”como?” e Lee Sing Kong disse: ”Se faz deixando a profissão de professor com o mesmo grau de importância das outras profissões mais importantes. E para isso, o salário inicial de um professor deve ser igual o inicial de um engenheiro e um contador (Lee também é um professor!).

E não é que o cara conseguiu? Por a + b! Mas e agora? Será que depois disso vamos considerar a lesson 1 do Logic Basics 101? Será que conseguiremos? Ou nosso analfabetismo funcional estragou nossas mentes de vez?

Isaias Bispo de Miranda – Carapicuíba. 20 de maio de 2016. Escrito para o blog Delírios Intempestivos.