A matraca e o silêncio


Escutando uma conversa entre quatro homens recordei-me de uma faceta curiosa da minha infância: eu não gostava de falar.


Os três economistas e o publicitário, todavia, adoravam. Não só porque eram tagarelas, mas também porque como disse um deles “meu gosto pelas letras veio antes do meu gosto pelas músicas”. Mas eu, como vocês já sabem, não gostava de falar.


Diz minha mãe que se eu não tivesse crescido, entraria no Guiness Book como o primeiro mudo cantor (ou cantor mudo, se preferirem). E não há motivos para se duvidar dela, uma vez que embora eu não lembre de uma única palavra saída da minha boca naquela época, eu me recordo de várias músicas efetuadas por esse mesmo aparelho a que chamamos “matraca”.


Sim. Matraca! E não boca! O homem não é um animal que fala, mas um animal que fala muito, muitíssimo. Não à toa, as mães (seres da natureza que conhecem suas crias como ninguém) pedem que calemos a matraca, e não a boca.


Certa vez eu e minha irmã nem bem saímos da van que diariamente nos levava à escola e a moça que cuidava da gente, matraqueiros mirins (o que não me inclui, claro) disse a nossa mãe:

“ – A Carina não pára de falar! Parece um rádio quebrado!”


Como um bom rádio quebrado (vulgo “humano” ou “matraca”), minha irmã acabou por sintonizar àquela moça uma surpreendente rádio: a rádio silêncio. Afinal, o volume do rádio quebrado era tanto, mas tanto, que os próprios ouvidos da moça criaram pernas, doaram o espaço ao Seu Zumbido e meteram os pés dali! Quanto a mim, o que mais eu poderia fazer além de escutar a rádio e, naturalmente, fazer silêncio?


Fiz silêncio, mas não demorou muito para eu começar a fazer música. Passados alguns meses do episódio do rádio, teoria musical, Mozart e Beethoven viraram meus grandes parceiros. Também não demorou para que eu aprendesse… matraca? Jamais! Violoncelo. O violoncelo e a música acabariam por fazer parte do primeiro grupo musical que participei: um que eu não me recordo o nome, mas que era regido pelo silêncio.


Nesse grupo, era comum eu me deparar pensando em sons e não em palavras. Mas numa dessas vezes, pensei em palavras:

“Se eu estou pensando em música, será que estou de fato pensando? Não estaria eu musicando o pensamento? Se eu sou um rádio e o pensamento é um CD, não seria a música como pensamento um CD riscado ou mesmo CD nenhum?”


Foi precisamente nesse momento que meu maestro silêncio me interrompeu e levantou a batuta. O ensaio tinha começado e meu instrumento era o violoncelo, e não a matraca.


E foi em lembranças, pensamentos e silêncios assim que eu me mergulhei ao escutar a conversa entre os homens. E agora volto a pensar se essa minha incapacidade em ser matraca não me prejudicou de alguma forma. Toco violoncelo, mas em que medida o violoncelo não foi um subterfúgio à matraca? Se o homem é um animal que não cala a matraca e se eu nem sequer possuía uma para poder calá-la, isso quer dizer que minha infância foi menos humana que a de vocês, homens normais e, assim, matraqueiros? Talvez! Quer dizer… Não sei dizer direito… Não sei dizer… Não sei dizer, mas sei tocar.


Peço, então, que escutem essas minhas não-palavras e desfrutem um pouco desse belo som que é a matraca do silêncio. Silêncio esse que tão pouco apreciado, mas mais universal que o próprio Universo, tão particularmente presente na minha e na sua vida, mas que some sempre mais rápido que palavras jogadas ao vento; silêncio esse que não obstante tão, tão… só pode ser escutado quando não calamos a matraca.


Isaias Bispo de Miranda – 26 de outubro de 2021.

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