Zadig! E não o Destino.

Resumo: O objetivo deste texto é discutir a relação entre o homem e o destino a partir do último parágrafo do Zadig[1] de Voltaire. Para tanto, relacionaremos tal trecho com vários outros da obra a fim de se entender qual é o papel do destino na vida do homem. Ao final, defenderemos a tese de que, se há ou não um ‘’triste destino’’, o que importa é o papel que o homem tomará para si frente ao que virá.

1.Zadig e o Destino

É logo no primeiro capítulo que vemos o encontro entre Zadig e o Destino:

‘’Tôda Babilônia, lamentando o destino de – Zadig, admirou a profundeza da ciência de Hermes. Dois dias depois, o abscesso resolveu-se por si mesmo; Zadig ficou completamente são. Hermes escreveu então um livro, em que lhe provou que não deveria ter sarado. Zadig não o leu; mas, logo que pôde sair, aprestou-se para visitar aquela em que fazia consistir tôda a sua felicidade e só pela qual desejava conservar os dois olhos. Fazia três dias que Semira se achava no campo. ‘’[i]

Encontro não muito amistoso, diga-se:

‘’Soube, em caminho, que essa bela dama, depois de declarar, abertamente a sua invencível aversão aos caolhos, desposara Orcan naquela mesma noite. A essa nova, Zadig perdeu os sentidos; a dor o levou à beira do túmulo; por muito tempo esteve doente;’’[ii]

Mas, se o mesmo destino que lhe feriu a visão pôde ser contornado, ele pôde, também, ser compreendido. Dessa forma:

 ‘’a razão venceu o sofrimento, e a própria atrocidade do que experimentava serviu para o consolar.’’[iii]

E:

‘’Já que sofri – disse êle – tão cruel capricho de uma moça da Côrte, devo agora procurar uma burguesa.’’[iv]

Ora, no desfecho dessa história entre Zadig e o Destino encontramos tudo, menos alguma coisa que aparente ser um desfecho! Nesse sentido, Voltaire nos impressiona ao escrever, no último parágrafo, que:

‘’Zadig, intimidado, já que tratara dos negócios de seu amigo Setoc e lhe salvara o dinheiro, não pensou mais senão em partir da ilha, e resolveu ir em pessoa saber notícias de Astartéia. – “Pois – pensava êle – se fico em Serendib, os bonzos me farão empalar; mas aonde ir? Serei escravizado no Egito, queimado, segundo tôdas as aparências, na Arábia, estrangulado em Babilônia. Mas preciso saber o que é feito de Astartéia: partamos, e vejamos o que me reserva o meu triste destino.’’[v]

Portanto, que história é essa entre Zadig e o Destino? Que história é essa que não foi destinada ao fim? Ao cabo do livro, nem Zadig e muito menos o Destino passaram por um momento derradeiro. Será que estamos diante disso mesmo, isto é, de uma história sem fim? E quanto ao homem? O que Voltaire está dizendo acerca de nós mesmos e o destino? Afinal, a que estamos destinados? É, a história humana, aquela em que sempre terminamos empalados, escravizados, queimados e estrangulados?

Faz-se necessário retomarmos ao conto, mesmo que de maneira breve e localizada, para que melhor possamos nos situar na vida de Zadig e, assim, tentarmos extrair daí o que Voltaire está falando sobre nossa própria vida. Finalmente, o papel do destino frente ao homem se desdobrará no papel do homem frente ao destino.

2.O ‘’triste destino’’.

Babilônia, Egito e Arábia. Semira, Azora e Astartéia. Cador, Setoc e Arbogad. Orcan, Moabdar e Itobad. Lugares, amores, amizades e inimigos. Se tivéssemos de elencar os elementos principais concernentes a Zadig, seriam esses. Todos eles fazem parte, mesmo que uns mais e outros menos, do destino de Zadig. Estamos falando de uma trama onde Reis, líderes religiosos, esposas, mercadores, diferentes povos e outras singulares personagens aparecem de maneira um tanto quanto… maravilhosa! E cômica:

“Como é lamentável, meu Deus, – dizia êle consigo, – ir a gente passear num bosque por onde passaram a cadela da rainha e o cavalo do rei! Que perigoso chegar à janela!”[vi]

Por outro lado, como se vê, a comicidade desse maravilhoso não raro se dá como má-sorte por parte de Zadig:

‘’E que difícil ser feliz nesta vida?’’[vii]

Por que é tão difícil a Zadig ser feliz? – não conseguimos deixar de perguntar.

Sua história começa sem nos falar do seu passado. Porém, suas qualidades de bom-moço, de justo e de quem sempre espera o melhor de tudo e de todos bastam como informações iniciais. Por fazer tudo certo, Zadig espera ser feliz. Assim, casa-se uma, duas vezes e a felicidade… Nada de lhe encontrar! Encontra é cadela e galinha. A felicidade tem sua importância nessa história. Mas ao mesmo tempo em que ela, felicidade, aparece como crucial, sempre parece ser suplantada por acontecimentos, por aquilo que Zadig entende como seu ‘’triste destino’’:

‘’Quatrocentas onças de ouro por causa da passagem de uma cadela! condenado à decapitação por quatro maus versos em louvor do rei! quase estrangulado porque a rainha tinha babuchas da côr do meu barrete! reduzido à escravidão por haver socorrido uma mulher a quem espancavam! e prestes a ser queimada por ter salvo a vida de tôdas as viúvas árabes!”[viii]

Zadig se apaixona perdidamente pela Rainha Astartéria, que também o amava, mas se vê impedido por sua lealdade a Moabdar, Rei de Babilônia. Tal amor é percebido pelo Rei com lentes ampliadas, fazendo com que Zadig fuja da cidade após ser condenado, junto de Astartéia, à morte. No caminho do Egito, novamente Zadig se vê sem sorte para com as mulheres. A moça que salvou é a mesma que desejará sua morte. De ambas, morte e moça, fugirá, mas acabará por chegar no Egito e ser vendido como escravo a Setoc, mercador árabe. Na Árabia, e já amigo de Setoc devido à consideração intelectual desse por aquele, interferirá nos hábitos da tribo a fim de se fazer justiça para com as mulheres. Fazendo com as mulheres viúvas não mais sejam queimadas com seus maridos, Zadig será condenado à fogueira.

Escapará da condenação; não por acaso, por ajuda da mulher que impediu de ser queimada. Partirá e encontrará um bem-sucedido salteador – Arbogad. Um salteador feliz e rico! Enquanto que Zadig, ainda absorto no seu amor angustiante por Astarteia, passará longe de um estado de alma que assemelhe à estar feliz. Surpreendentemente, acabará por reencontrar com sua amada… Escravizada! Lutará por sua liberdade e a conseguirá. Saberá da morte do Rei Moabdar e da competição aberta ao Reino. Quem se mostrasse o mais bravo e mais sábio entre os competidores, se tornaria no novo Rei de Babilônia e esposo de Astarteia. Ganhará a primeira etapa, mas terá tal conquista tomada por Itobad. Novamente o destino perturbará a Zadig!

Sempre o destino:

“Eis em que deu – dizia êle consigo – ter-me acordado tarde; se houvesse dormido menos, seria rei de Babilônia e possuiria Astartéia. As ciências, o caráter, a coragem; só serviram, pois, para meu infortúnio.”Escapou-lhe enfim murmurar contra a Providência, e foi tentado a crer que tudo era governado por um destino cruel que oprimia os bons e fazia prosperarem os cavaleiros verdes.’’[ix]

Amor inaceitável, tirania, escravidão, injustiça para com a mulher, leis absurdas calcadas no puro costume – eis coisas terríveis que Zadig era incapaz de aceitá-las como coisas para as quais estávamos destinados. Destino! Destino esse que Zadig muitas vezes conseguirá enfrentar com sucesso, mas que, de um jeito e de outro, sempre parecia acabar como um ‘’triste destino’’

3.O livro dos destinos… Uma história sem fim.

É com extrema tristeza que Zadig acabará por ter contato com aquele que o iluminará acerca dos ditames do destino. Verá nas mãos de um eremita o livro dos destinos. Mas embora culto em línguas, aquela ele não conhecerá. Em um primeiro momento, conversarão sobre o destino:

‘’Convieram, na conversação, em que as coisas dêste mundo não marchavam sempre ao agrado dos mais sensatos. O eremita sustentava que não se conheciam os caminhos da Providência, e que os homens faziam mal em julgar um todo de que só percebiam a mais ínfima parte.’’[x]

Todavia, seguindo a figura de eremita, experienciará ações por parte deste sábio senhor as mais estranhas e cruéis. Num desses momentos, Zadig verá o eremita arremessando mortalmente um menino às águas e se indignará. Não demorará em perceber, porém, que o eremita, na verdade, era o anjo Jesrad. Num segundo momento, ainda sobre o destino, Zadig finalmente o compreenderá.

Jesrad explicará que não há mal que não venha para um bem; e que se não houvesse mal:

‘’ êste mundo seria outro; o encadeamento dos fatos obedeceria a uma outra ordem de sabedoria; e essa outra ordem, que seria perfeita, só pode existir na morada eterna do Ser Supremo, de quem o mal não pode aproximar-se. Criou Êle milhões de mundos, nenhum dos quais se pode assemelhar ao outro. Essa imensa variedade é um atributo de seu poder imenso. Não há nem duas fôlhas de árvore na terra, nem dois globos nos campos infinitos do céu, que sejam semelhantes; e tudo o que vês sôbre o pequeno átomo em que nasceste devia estar no seu lugar e no seu tempo fixo, conforme as ordens imutáveis daquele que tudo abrange. Os homens pensam que êsse menino que acaba de perecer caiu no rio por acaso: tudo é prova, ou punição, ou recompensa, ou providência. Lembra-te daquele pescador que se julgava o mais infeliz dos homens. Orosmade te enviou para lhe mudar o destino. Frágil mortal, cessa de arguir contra aquilo que cumpre adorar.’’[xi]

Zadig finalmente entenderá o papel do destino na sua e nas vidas dos outros homens, e será com tal entendimento que voltará à Babilônia para vencer a prova de sabedoria e, provando ser Itobad um farsante ao derrotá-lo, ganhará a competição, se tornará Rei e esposo de Astartéia. Com tal espírito de sabedoria e justiça, governará a Babilônia como um império ‘da paz, da glória e da abundância’.

Ora, se é assim, isto é, se entendendo qual era a do Destino Zadig pôde conseguir tudo o que mais desejava, então qual é a razão para que esse momento da história seja sucedido por mais dois capítulos? Como é possível que um correto entendimento do Destino por parte de Zadig tenha feito com que ele continuasse com a mesma fala de sempre, isto é, chamando atenção para seu ‘’triste destino’’?

4.Zadig! E não o Destino.

Quando Jesred partiu para o décimo mundo, não o fez sem deixar Zadig sem resposta para a pergunta que faria. Todas as perguntas que Zadig viu respondidas pelo anjo, eram características, partes, desta coisa que a todo momento era o foco de Zadig: nada mais, nada menos que o fim do Destino. Podemos imaginar que, se sua não respondida pergunta não era diretamente uma que buscava a finalidade do Destino, ela caminhava nesse sentido. Mas jamais poderia o homem saber daquilo que não pode ser conhecido! O livro dos destinos – lembremos – não era legível a Zadig! Quando Jesred não o respondeu, portanto, nada mais fez senão adiantar a resposta: não estamos destinados a saber o final da nossa história; ela é, portanto, sem fim; sem um fim que possa ser conhecido pelo homem.

Torna-se entendível, agora, o motivo de mesmo iluminado a respeito do que era o destino, Zadig ter partido a ver o que lhe reservava seu ‘’triste destino’’: conhecer humanamente o Destino implicava em saber que seu papel era necessariamente uma incógnita, restando, por consequência, que o homem assumisse para si o papel de ‘’partir’’, ‘’ver’’ – ir à Babilônia! Triste ou não nosso Destino, a nós não haveria outra possibilidade senão rumarmos às nossas Astartéias. Zadig! E não o Destino – também poderíamos ter como título a peça de Voltaire.

Isaias Bispo de Miranda é estudante de filosofia na PUC-SP – 23 de maio de 2020 – Trabalho para a disciplina Seminário em História da Filosofia I da professora Maria Constança Pissarra.

[1] A edição do Zadig aqui utilizada é a traduzida em português por Nélson Jahr Garcia, que se encontra em livre acesso pelo Domínio Público. Sua reprodução se deu de maneira integral, incluindo, com isso, erros de ordens gramatical e editorial.

[i] Zadig. p.2

[ii] Idem. Ibdem.

[iii] Idem. Ibdem.

[iv] Idem.Ibdem.

[v] Idem. p.40

[vi] Idem. p.5

[vii] Idem.Ibdem.

[viii] Idem. p.22

[ix] Idem.p.31

[x] Idem. p.33

[xi] Idem. p.35

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