A geração que quebra a cara com o celular

”Fulano é muito bom! Você não tem ideia de como ele foi importante na minha vida!”

Gozado como a importância de alguém é dada por muita gente hoje em dia. Bach não é bom porque compôs ”Jesus Alegria dos Homens”. Newton não é bom porque formulou a master-blaster-fucking lei da gravidade. Machado de Assis não é foda porque escreveu Dom Casmurro. Toda essa gente é boa simplesmente porque ”elas são parte de mim, do que eu sou”!

A juventude de hoje (inclusive aquela de cabelos já grisalhos!) realmente não consegue falar de alguma coisa sem que essa coisa lhe envolva, sem que o valor dessa coisa seja dado principalmente (quando não totalmente!) por ela. Sem que seja ela! Daí Bach vira o bichão porque acalma a alma do jovem. Newton vira referência porque suas leis valem para a molecada (o celular cai na cara, hem?). E Machado de Assis torna-se ”mesmo” o maior escritor brasileiro porque eles se ”identificam” com Capitú ou Bentinho!

É lugar comum, sim, apontar nossos tempos como tempos de individualismo, egoísmo e narcisismo. Mas eu fico pensando se esse papo não anda meio incompleto. Não será que tem algo faltando nessa história? Quer ver um problema? Então tente pensar em como pode o individualismo ser tão forte ao mesmo tempo em que os grupos, as comunidades, as tribos, virtuais ou não, são tão importantes.

Epa! Olha a juventude do autor fazendo presença! Essa questão, na verdade, é posta é por Ghiraldelli. Ainda não me formei filósofo para ter o dever de me autocitar. Mesmo quando a referência não sou bem eu…

Ghiraldelli explica que essa coexistência entre o individualismo e os muitos grupos por aí se dà é por conta do individulismo, sim. O grupo aparece como o local que permite a pessoa ser reconhecida enquanto ela mesma, indivíduo, diferente dos outros, portanto. Sou jogador de vôlei e de extrema-direita. O que eu faço? Entro numa comunidade de jogadores de vôlei bolsonaristas e passo a ser alguém, a me ver e ser visto como isso aí, ”uma pessoa”.

Todavia, por que um grupo? Por que quem se vê como uma partícula, um átomo na sociedade, recorre aos grupos e não a outras coisas? Acontece que esse tal indivíduo de hoje em dia não é tão individual quanto pensa. Ele está mais é para algo que por ter perdido sua identidade, vai atrás de saídas que, enfim, lhe preenchem ao menos aparentemente. Nossa tarefa, assim, torna-se entender essa perda, esse esvaziamento de subjetividade numa sociedade que não é outra senão a da coisa mais ensimesmada, vazia e narcisa existente: o dinheiro.

Isaias Bispo de Miranda – 19 de janeiro de 2020.

 

 

 

 

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