No dia do beijo…

Uma vez ele sugeriu ao amigo que, no dia do beijo, desse de tudo a namorada, menos o beijo.

Conversa vai, conversa vem. Vem e vai. Vai e volta ao assunto:

— A Ju sempre diz que homem é previsível demais. Usam todos o mesmo manual ‘’Como surpreender sua mulher numa só lição’’. Faz sentido mesmo, rapaz! Quero ver ela falar em previsibilidade de novo!

— Calma, cara. Meio que falei isso na piada. Qualquer ideia é melhor que essa…

— Não, velho. Você está certo! Daí quando chegar o final do dia, lasco um beijo na Juzinha. – Disse o amigo, rachando o bico — Não vou parar de beijar ela prá sempre. É só por um dia! Sua ideia é excelente.

No dia do beijo ele resolveu dar de tudo a namorada. Menos o beijo.

Em um só pulo reservou restaurante, motel. Comprou o maior e mais caro buquê da floricultura – Hoje minha namorada vai ganhar de tudo. Menos o beijo – Fez questão de contar ao vendedor.

Mais sorridente que criança com doce, foi tratando de ligar para a Julia:

— Tô aqui na Cristovam. Adivinha por quê? Hem, amor. Adivinha porquê estou aqui!

— Que saudade de você. É muito chato passar um dia sem você. Dois então…

— Vamos jantar, Ju? Tem um restaurante aqui que nós nunca fomos. Dei uma olhada por dentro dele e curti bastante. Te pego às 19:00? Que tal? Também tô morrendo de saudade, amor.

Chegado o fim da tarde, Otávio foi à porta de Julia e colocou o imenso buquê de Tulipas bem na frente do olho mágico. Se a porta fosse constituída da mesma natureza dos seus olhos e se a fortuna quisesse que a tragédia não se instaurasse na vida do nosso casal, ela, porta, teria puxado Otávio para junto de Julia e os teria prendido, dentro da casa.

Mas o caminho era sem volta. Otávio estava decidido. No dia do beijo ele daria de tudo a ela. Menos o…

— Otávio, o que tem contigo? Está com algum problema? Você está agindo estranho. Não quis me beijar em casa. Se desviou todo.

— Que nada, Ju. Bobagem. Ah! Você já provou isso aqui, ó? Acho que é uma delícia. Garçom, por favor? –  Otávio, se esquivando como se estivesse no filme Matrix.

— Tavião… – Dessa vez Julia colocou os talheres na mesa e abaixou os olhos, soando preocupada – Quando você foi demitido da papelaria, ficou assim, que nem hoje. Querendo se mostrar feliz, me levando para sair, mas agindo esquisito. Tudo porque não queria dizer que tinha sido demitido… Estou contigo para o que der e vier, amor. Você sabe.

— Senhor Otávio. Em que posso te ajudar? – Chega o garçom, sai o receio de Otávio. Ainda não era hora de revelar a brincadeira.

O clima do casal não saiu muito daquilo. Mas devido ao bom sabor da comida, à conversação e, principalmente, às várias doses de vinho, o jantar terminou bem. O motel, nessa hora, chamava-os aos sussurros no ouvido.

Dentro do taxi a caminho do motel, e com Julia no ombro esquerdo, Otávio ainda se divertia que só ele. A história do beijo estava sendo bem mais gostosa do que ele imaginava que seria. Chegou o momento, todavia, que a intimidade deu um passo além. Primeiro veio a fungada, depois a respiração ofegante. Ambas tão audíveis quanto o motor do automóvel. Eis que Otávio perde a linha, puxa Julia para mais perto ainda de si e mete-lhe um beijinho na testa:

— Motorista, por favor! Pare o taxi! Pare o taxi por favor! – Gritou Julia, irascível. Sai do carro e desaba a correr pela calçada.

— Ju! Ju! Espere! Ju, era só uma brincadeira! Eu só queria te fazer uma surpresa! Ju! Espere! Ju! Olha aqui! Ju!!!

No dia do beijo ele deu de tudo a namorada. Menos o beijo. E no dia do beijo ela deu de tudo ao namorado. Menos a…

Isaias Bispo de Miranda – 26 de outubro de 2017

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