O Fim da História será com o cachorro ao lado

O cachorro é aquele seu amigo que suja toda a sua casa. É o demônio que a transforma em um inferno marrom. Bota fezes e lama para tudo que é canto! Mas, aos homens e mulheres com mais de 30, é quem o amor e a lealdade poderiam ser transformados em seus símbolos. Não é um demônio, mas, sim, um ”demoniozinho”. Deus nem haverá de julgá-lo no juízo final para manda-lo direto ao céu, acreditamos.

Mas como é que chegamos a nos incomodarmos quando nos questionado a razão de tratarmos os cachorros como nossos filhos e protegê-los com a força da lei, inclusive a ponto de podermos inseri-los na trama do paraíso?

Marx, o filósofo do conflito, torna-se agora ”o filósofo da suavização” e prepara-nos o pano de fundo para respondermos essa questão.

A história do mundo ocidental também pode ser compreendida como a história da suavização das relações. De um maior número de classes sociais onde a possibilidade de alguém mudar de uma classe inferior para outra superior era impossibilitada por ele não ser da família dominante, ”escolhido por Deus” ou ”não ter sangue azul”, tal como foi no mundo antigo e medieval, chegamos na modernidade onde alguém é dono de uma indústria petroleira ou é um trabalhador braçal pois ”trabalhou duro” ou não trabalhou o suficiente. O mundo onde as relações humanas estão calcadas como ”fria relação do dinheiro” é ideologicamente o mundo onde o mérito aparece como o elemento responsável pela existência das classes burguesa e proletária, é o nosso mundo moderno. Chegaríamos ao ponto onde até mesmo essa relação seria esclarecida, fazendo com que o proletariado tomasse o poder, destruísse o que nos separava e se tornasse a única e última classe. Até que, finalmente, essa última classe seria suprimida, o ”fim da história” chegaria e o homem novo gozaria daquele estágio final ao qual Marx chamou de ”comunismo”.

Ora, o proletariado não tomou o poder. Muito menos parece, com as democracias liberais atuais, que tal coisa esteja próximo de acontecer. De todo modo, isso não impediu com que continuássemos a nos modernizar e, consequentemente, o processo de suavização das relações continuar caminhando pelas trilhas da história.

Percebemos que aquele ”bicho de pele preta”, responsável como escravo por construir uma boa parte do nosso mundo, também sentia dor, tinha raiva, amava e pensava. Era um ”de nós”! Ele também era homem! Demos a eles então, apesar de forte resistência de alguns outros ”de nós” – bem mais distantes da gente do que os negros eram – a liberdade. E continuamos! Gays? Quem de nós, homens héteros, nunca tínhamos dado a bunda? Impediríamos dois homens de se amarem, se casarem, enfim, ter uma vida normal simplesmente porque faziam o que veladamente gostávamos de fazer? O mesmo se aplicou com as lésbicas e chegou à sociedade o termo ”LGBT’s que continua se expandindo.

A suavização continuou tão intensa que afetou até a democracia! A democracia passou de um regime da maioria para um outro regime que, para além da maioria, protege e promove as minorias! Negros, gays, mulheres e indígenas são minorias que já estão na boca da sociedade. Lésbicas mudas e surdas que querem uma ilha com suas filhas também lésbicas mudas e surdas são um outro grupo que também podemos proteger.

O cachorro não poderia deixar de entrar nessa história da suavização sem a sua natural simpatia. Ao contrário de nossos maridos, esposas, namorados e amigos humanos que somem com o tempo, o cachorro permanece nos acordando com um brilho nos olhos todas as manhãs. Alguns deles defecam sempre no mesmo lugar que definimos. Olhamos as características da nossa convivência com esse peludo e percebemos que ela é mais humana do que a que temos com a maioria das outras pessoas! Isso é animal!

Muita gente, mesmo dizendo a elas tudo o que foi dito aqui, não conseguem entender a razão de querermos que o SUS também atenda os cachorros. Não entendem por que sofremos ao ver um animal sofrer. Já era de se esperar. Afinal, elas não conseguiram sacar isso com a demonstração de carinho dos animais vizinhos! Mas a essa gente conservadora destinamos é uma bela de uma mijada! Que pena o couro não deixar os líquidos penetrá-lo!

Se algum dia o proletariado marchar a caminho da tomada do poder, não será de mãos-dadas. Será de mãos e patas-dadas. Mas, enquanto isso não chega, procuramos ser felizes, ao mesmo tempo que aumentamos nossa esfera de proteção e, o que é mais importante no momento, levamos nossos cachorros para passear.

Isaias Bispo de Miranda. 20 anos. É violoncelista e estudante do Bacharelado em Ciências e Humanidades na Universidade Federal do ABC. Carapicuíba – 21 de março de 2016.

 P.S.: O Fim da História pode ir além de mãos e patas. Mãos metálicas de robôs e patas de gatos provavelmente o acompanhará. Quem poderá negar que mãos de aliens e garras de formigas também?

 P.S.2: Ninguém mais acredita no comunismo. Gostamos da democracia e não sabemos se existe algo melhor que ela. Mas o que importa é que seja lá para onde formos (se formos), nossos cachorros estarão conosco.

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