A jazzinha – a ligação

O dia já estava no final da tarde. Eu estava com aquela preguiça que surge depois de assistir aulas na manhã e na tarde. Mas quando vi o número desconhecido me ligando, fiquei mais enérgico e disposto do que um garoto de 16 anos é para se masturbar. Sentei-me num banco próximo à plataforma e resolvi atender o telefone.

Como eu esperava, a ligação era da EMESP. Quem estava me ligando era o Paulo Ferminiano – Paulinho, como eu depois me acostumaria a chamá-lo -, montador e responsável por muitas coisas dos grupos jovens. Depois de me perguntar se eu era o ”Isaias Bispo do violoncelo”, ele perguntou se eu queria aceitar a vaga de violoncelo para a jazzinha. É obvio que eu respondi com um sim! Porém, por mais que essa pergunta pareça ter uma resposta óbvia, na verdade ela não é nada óbvia. Uma boa parte dos suplentes não aceitariam a vaga porque, caso continuassem na lista dos suplentes, poderiam ser chamados para a estadualzinha. Eu, com uma vontade tremenda de tocar numa orquestra jovem e receber uma grana, só poderia aceitar, de primeira, a vaga para a jazzinha.

A ligação já tinha sido encerrada e eu já estava dentro do trem em direção à minha casa. Nessa hora, eu estava muito feliz. Muito mesmo! O cheiro desagradável e a barulheira dos passageiros, como é comum nesse transporte, não estavam me incomodando. Para ser mais preciso: eu nem se quer prestei atenção em tais incômodos. Eu não via a hora de contar para o meu pai, minha mãe e irmã sobre a ligação. Também não via o momento de chegar em casa, ligar o computador e enviar um e-mail para a Meryelle avisando sobre a jazzinha.

O trem chegou na estação Carapicuíba. Fui caminhando de lá até minha casa. Entretanto, antes de nela chegar, encontrei meu pai em um escadão. Ansiosamente, contei para ele, quase aos gritos, antes mesmo de me aproximar dele, que havia sido chamado para a jazzinha. Meu pai reagiu com alegria e talvez com os olhos vermelhos. Não tenho certeza quanto a esse possível choro. Mas na hora era isso que aparentava. Despedi-me dele e subi alguns degraus para entrar na minha casa.

Entrei em casa e a primeira coisa que eu fiz foi ligar o computador. Enquanto ele ligava, eu avisava minha mãe e irmã. Abri o navegador, entrei na minha conta do YahooMail e enviei a informação para a Meryelle. Depois de ter feito essas coisas, eu já me sentia aliviado, sem perder a alegria, é claro. Ora, o gozo é tão importante quanto o sexo em si, não?

Algumas horas depois, entrei novamente na minha conta de e-mail e li a resposta da Meryelle. Era um texto muito alegre e, como era costumeiro à minha professora, muito expressivo. Afinal, ela se dedicava muito a mim. Ela havia investido pesado na tentativa de me desenvolver artisticamente. Mas não foi só isso que ela fez após receber o e-mail.

Entro na minha conta do Facebook e vejo um post da Meryelle no qual eu havia sido marcado. Nele, ela falava sobre a aprovação de um aluno dela para a Orquestra Jovem Tom Jobim. Muitas pessoas haviam curtido e comentado. Nem preciso dizer que, por isso, fiquei muito mais contente do que já estava.

Ufa!: era só isso o que eu podia dizer. Depois de tanto estudo, depois de tanto cansaço, eu podia ficar tranquilo. Sim, o fato da jazzinha ser uma orquestra focada na música popular me deixava com alguns receios, bem poucos, diga-se de passagem. Todavia, esse seria o próximo desafio que eu seria submetido. Desafio nada chato, é preciso dizer! Já estava no final do dia e eu já estava na minha cama pensando essas coisas. Fiquei imaginando o que poderia acontecer quando eu avisasse meus amigos da EMESP. Também fiquei pensando que, até que enfim, eu poderia comprar um violoncelo com um bom som! Finalmente, dormi.

Isaias Bispo de Miranda – Carapicuíba, 01 de março de 2015

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