A jazzinha – o teste

Como é que eu pude fazer tal coisa? Já que, entre o momento em que me inscrevi no teste e quando o teste chegou, foram mais de duas semanas, eu não deveria ter esquecido de estudar a música que, teoricamente, representava 1/3 da nota final. Todavia, quando estava me aquecendo, lembrei que poderia tocar a allemande da primeira suíte do Bach. Assim, como ela já fazia parte do meu repertório e como eu precisava de uma música para ser tocada como livre-escolha, a possibilidade de eu ser aprovado seria realmente possível, ou, mais realisticamente, de eu não ser eliminado do teste.

E foi isso que eu resolvi fazer. Abri a minha pasta de partituras e, graças aos deuses, a allemande estava lá. Não pensem que, por mais que eu a tenha estudado, isso é algo que normalmente se faça. A menos que o músico queira ter a possibilidade de ir mau em um teste e desonrar o compositor da música que ele tocará, isso não é algo que se deva fazer! Para uma música ser tocada, além de fazer parte do domínio do instrumentista, é necessário que ela tenha sido ensaiada com alguns dias de antecedência.

Alguém bate na porta. Era o Renato, um professor de violoncelo da EMESP. Ele abre a porta e pergunta se eu já estou pronto. Digo que sim e recebo uma solicitação de me apresentar na sala ao lado. Eu não cheguei nem a praticar a escala da tonalidade da música – sol maior – e já estava caminhando no corredor em direção à sala do teste.

Cheguei na sala de testes. Duas pessoas estavam na banca: o Renato, que veio me chamar, e o Joel, que era um outro professor de violoncelo. Perguntaram-me aquelas coisas comuns em todas as bancas, como a minha idade, a instituição que eu pertencia e quem era o professor de instrumento, se eu já havia tocado em outros grupos etc. Terminada as perguntas, disseram-me que eu já podia tocar. Por mais incrível que pareça, eu não fiquei muito tímido na hora em que comecei a tocar o Allegro Apassionato. Tive, sim, aquela sensação de um pequeno medo de errar e de achar que a banca não estava gostando de me ouvir. E foi aí que também tive mais outra surpresa: percebi, por estar reparando no rosto da banca o tempo inteiro, que o Joel fez um sinal indicando que estava gostando da minha performance. Isso me agradou bastante. Terminei o Allegro Apassionato e chegou a hora da allemande.

Havia chegado a hora da música que, por mais que fosse mais fácil do que tudo o que eu iria tocar, era o desafio do momento. Respirei e iniciei. As coisas foram caminhando corretamente. Eu não havia esquecido nada dela. Ela era a minha peça do Bach mais trabalhada. Ao mesmo tempo em que eu tocava, eu cometia um erro que um músico não pode cometer: preocupar-se com a técnica no momento da performance. Porém, por sorte, a música fluiu sem erros. Quando parei de tocá-la, senti-me muito aliviado. Muito mesmo! Era como se eu tivesse gozado depois de uma boa foda. Agora, eu já estava pronto para o momento final da prova: a leitura à primeira vista.

Um dos professores deu-me uma partitura com marcações de uma música para eu lê-la. Deram-me 1 minuto para lê-la antes de tocá-la. Era um trecho orquestral fácil, mas não tão fácil. Finalmente, eu o toquei. Terminei a música, agradeci os professores e saí da sala.

Não me lembro se, na hora em que eu estava passando pelo corredor, eu estava alegre, triste, ansioso ou deprimido. Mas o teste havia terminado. Até que enfim havia chegado ao fim! Esse foi, ao lado do teste de entrada para EMESP, meu teste mais significativo. Os 5 minutos de prova pareciam ter durado 50 horas. Minha performance havia sido bem pior do que ela era quando eu a praticava na minha casa. Algumas coisas, entretanto, também me deixaram bem orgulhoso. O Allegro Apassionato era a música mais complexa e exigente que eu havia estudado. O fato de eu ter conseguido tocá-la e de, por meio dela, trabalhar minha expressão como nunca havia feito, me deixara muito feliz. Era a minha primeira peça virtuose.

Passaram-se alguns dias. As férias já haviam acabado e minhas aulas na escola e na EMESP já haviam retornado. Sai o resultado do teste: eu havia passado como segundo ou terceiro suplente.

Isso não me deixou triste, porém, também não me deixou feliz. A chance de eu ser chamado para a estadualzinha era pequena. Mas, lembrei que meu amigo Gabriel Neves havia sido chamado para jazzinha tendo passado como suplente. Ora, por mais que a jazzinha não fosse o que eu estava realmente interessado, ela seria legal e preencheria minha necessidade financeira. Okay, jazzinha, você agora é onde eu quero ser chamado!

Poucos dias se passaram. Eu estava voltando da EMESP para a minha casa, aguardando o trem na estação Julio Prestes quando recebo um telefonema. Alguns dias antes, eu já estava com a expectativa de ser chamado para a jazzinha por telefone. Então, toda vez que o telefone de casa tocava, eu o atendia. Minha família achava isso muito engraçado, porque, normalmente, eu não atendia o telefone por situação alguma, eu era muito preguiçoso quanto a isso. Olhei para o visor do celular. Era um número que eu desconhecia. Pelos dígitos iniciais, quem o usava parecia pertencer a algum lugar da cidade de São Paulo. Será que era alguém me convidando para fazer parte da jazzinha?

Continua na próxima postagem.

Isaias Bispo de Miranda – 22 de fevereiro de 2015

Parte 1: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/02/15/a-jazzinha/

Parte 3: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/03/01/a-jazzinha-a-ligacao/?preview=true&preview_id=80

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