A jazzinha – como tudo começou

Das orquestras e grupos musicais que eu já toquei, um deles foi o mais marcante: a Orquestra Jovem Tom Jobim. Era um grupo excelente. Foi onde conheci uma parte significativa dos meus mais caros amigos e onde muito desenvolvi minha técnica violoncelística, portanto, foi onde minha formação como artista mais foi trabalhada. Porém, como tudo começou?

Em 2010, ano em que entrei na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP), ouvi, pela boca de um amigo meu chamado Gabriel Neves, a primeira coisa acerca de uma orquestra da escola, intitulada ”jazzinha”. Ele havia me dito que, por não ter sido aprovado para o teste da ”estadualzinha” (Orquestra Jovem do Estado), que era a orquestra mais cobiçada pelos jovens músicos da EMESP, e como tinha passado como suplente, havia sido chamado para integrar o naipe dos violoncelos da jazzinha. Ele aceitou a vaga. Mas saiu porque o repertório era ”treta” e a música popular não era lá seu gosto musical. Foi assim que eu ouvi falar, pela primeira vez, sobre a jazzinha.

Fiquei interessado na orquestra, mas como segunda opção. Eu também não gostava de música popular e, assim como a maior parte do pessoal da escola, também queria uma vaga na estadualzinha. Ela era uma orquestra jovem focada no repertório clássico, erudito. O regente, João Maurício Galindo, era renomado. Os músicos eram um pouco mais avançados musicalmente do que os da jazzinha. Então, resolvi que esse seria o grupo que eu iria entrar. E, caso não passasse no teste, que pelo menos eu entrasse na jazzinha. Assim, eu poderia, além de tocar num grande grupo, custear meus gastos pessoais, já que eu era totalmente bancado pelos meus pais.

Chegada as férias de 2010, ou seja, quando eu estava sem a necessidade de assistir as aulas do ensino médio e da EMESP, comecei a me dedicar com muito mais afinco ao violoncelo. Eram horas e mais horas de estudo. Fazer tudo isso era extremamente prazeroso. Eu fazia mais de 1 hora diária só de escalas e arpejos, mais de 2 horas de estudos técnicos e, no restante do tempo, eu me dedicava a tocar e estudar músicas. Não fazia isso pensando na estadualzinha, mas sim na possibilidade de tocar bem, de tocar os concertos fodas que eu ouvia por horas, de ter o domínio do repertório que havia inspirado-me a tocar violoncelo.

Finalmente, o período de inscrições para os grupos jovens (essa era a forma que os grupos musicais da EMESP eram chamados pela própria instituição) iniciou-se. Tratei de inscrever-me. Iria tocar o Allegro Apassionato de Saint-Saens. Acabei ficando com um pouco medo, mas passou-se rápido. Mas, um dia antes do teste, passei por um conflito interno que poderia fazer toda a diferença na minha vida como músico.

Ser músico como profissão significava estar largando a vida de músico na igreja. Eu era religioso e foi na igreja o primeiro grupo musical onde toquei. Lá era onde estavam meus primeiros professores de violoncelo – Carlos e Renato -, onde estavam as pessoas mais importantes da minha vida, como os meus pais e amigos. Segundo o regulamento da igreja, os músicos não podiam fazer parte de outros grupos musicais. O dom da música deveria ser dedicado exclusivamente para Deus. Portanto, entrar num grupo que visava preparar os jovens músicos para a vida artística, por isso, para a vida profissional, era o mesmo que ter de largar minha vida de músico na igreja.

Decidi, algumas horas antes do teste, que eu o faria e que, caso fosse aprovado, aceitaria a vaga. Mas isso não significou o abandono da vaga de músico na igreja. Achei uma brecha. Não falaria para os irmãos da igreja que eu fazia parte de outra orquestra. Tão simples! De certa forma, eu já sabia que, perante Deus, eu não estava pecando. Sabia que essa era uma norma da igreja enquanto instituição que visa intermediar o homem perante Deus, portanto, ela não era o próprio Deus. Também sabia que as normas variavam com o tempo. Deus? Por que ele se importaria com algo tão trivial quanto isso? Resolvi dormir e, assim que acordasse, iria para o teste.

Acordei. Era por volta das 6 horas da matina. Preparei meus documentos, instrumento e repertório. Fui para o teste. Cheguei na EMESP e uma pequena ansiedade também chegou comigo. Achei a sala de aquecimento. Toquei algumas escalas e… foi nessa hora que percebi que havia esquecido algo muito importante: não tinha estudado uma música de livre escolha. Para o teste, eu teria de tocar uma peça de confronto – no meu caso, Allegro Apassionato -, uma música lida à primeira vista e uma peça de livre escolha. Comecei a pensar que meu teste seria prejudicado, que eu não seria aprovado. Adeus, estadualzinha! Jazzinha, um abraço! Mas tive uma ideia que poderia mudar o rumo das coisas…

Continua na próxima postagem.

Isaias Bispo de Miranda – 15 de fevereiro de 2015

Continuação:

1: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/02/22/a-jazzinha-o-teste/

2: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/03/01/a-jazzinha-a-ligacao/?preview=true&preview_id=80

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