Com os oprimidos não pode?

Centro de uma metrópole. Dia normal de trabalho. Paloma, uma garota de 17 anos, está caminhando junto de seu pai num edifício empresarial. Ela só estava lá porque seu trabalho da escola era relatar um dia de trabalho de um parente.

Paloma observa os funcionários trabalhando. Observa mais eles do que seu pai. O primeiro, é um senhor que aparenta ter 40 anos de idade. Ele é porteiro do edifício e, por razões óbvias, foi o primeiro que ela viu. O segundo é um rapaz, por volta de uns 25 anos, magricela e com olhar atento, estava limpando a primeira parte do hall de entrada.

Quarto andar do edifício. Paloma está acompanhando seu pai em direção à uma porta grande, de onde sai e entra algumas pessoas uniformizadas. Lá, era um local onde uma grande equipe de faxineiros se reuniam e, como seu pai era o supervisor geral deles, ele a estava levando para lá.

Entram na sala. Paloma observa uma característica comum dos funcionários, além de estarem vestidos de uniforme: eram negros. Então, pergunta ao seu pai:

– Pai, aqui não deveria ter cotas para brancos?

Se alguém alinhado à esquerda lesse isso, muito provavelmente diria que há um humor de mau gosto e, além disso, que poderia incitar o racismo, se é que já não é racista por si próprio. Não podemos fazer humor com os oprimidos: eis uma frase que resume bem as críticas que seriam levantadas.

O que a esquerda esquece nessa hora é que, no humor, assim como nas artes e na literatura, o que vale é a interpretação e não a compreensão.

Esse texto pode muito bem ser interpretado como uma captura da realidade social brasileira, ou seja, onde a cor da pele está fortemente relacionada à classe social do indivíduo. Uma pessoa inteligente, que fez um bom ensino médio, pode muito bem interpretar dessa forma. Nesse sentido, o texto pode ser lido como simpático à uma luta histórica da própria esquerda: a da igualdade racial.

É um absurdo ter de dizer isso para homens barbados. Para pessoas que já passaram pelas aulas de literatura. Para pessoas que trabalham com literatura! Porém, é mais absurdo ainda um humorista ter de explicar sua piada para não ser preso.

Quando pessoas, como a cartunista Laerte, dizem que o humor que atinge os oprimidos deve ser vetado, elas estão flertando com a direita brasileira dos tempos de ditadura. Todos sabemos que havia, sim, justificativas sociais para a censura, e não somente porque os militares eram facínoras sedentos de sangue. Parece que os mais de 20 anos de cercamento da liberdade não ajudaram a esquerda a refletir bem sobre a censura. Gente assim se daria bem com o estalinismo.

Tive um professor de história que sempre dizia que ”a censura é míope”. Ele tinha razão. Deixo um desafio: essa minha ”historinha” é de direita ou de esquerda?

Isaias Bispo de Miranda – 12 de fevereiro de 2014

 Créditos da fotografia: Rayane Vieira – http://aluaminguante.tumblr.com/

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