Mês: fevereiro 2015

A jazzinha – o teste

Como é que eu pude fazer tal coisa? Já que, entre o momento em que me inscrevi no teste e quando o teste chegou, foram mais de duas semanas, eu não deveria ter esquecido de estudar a música que, teoricamente, representava 1/3 da nota final. Todavia, quando estava me aquecendo, lembrei que poderia tocar a allemande da primeira suíte do Bach. Assim, como ela já fazia parte do meu repertório e como eu precisava de uma música para ser tocada como livre-escolha, a possibilidade de eu ser aprovado seria realmente possível, ou, mais realisticamente, de eu não ser eliminado do teste.

E foi isso que eu resolvi fazer. Abri a minha pasta de partituras e, graças aos deuses, a allemande estava lá. Não pensem que, por mais que eu a tenha estudado, isso é algo que normalmente se faça. A menos que o músico queira ter a possibilidade de ir mau em um teste e desonrar o compositor da música que ele tocará, isso não é algo que se deva fazer! Para uma música ser tocada, além de fazer parte do domínio do instrumentista, é necessário que ela tenha sido ensaiada com alguns dias de antecedência.

Alguém bate na porta. Era o Renato, um professor de violoncelo da EMESP. Ele abre a porta e pergunta se eu já estou pronto. Digo que sim e recebo uma solicitação de me apresentar na sala ao lado. Eu não cheguei nem a praticar a escala da tonalidade da música – sol maior – e já estava caminhando no corredor em direção à sala do teste.

Cheguei na sala de testes. Duas pessoas estavam na banca: o Renato, que veio me chamar, e o Joel, que era um outro professor de violoncelo. Perguntaram-me aquelas coisas comuns em todas as bancas, como a minha idade, a instituição que eu pertencia e quem era o professor de instrumento, se eu já havia tocado em outros grupos etc. Terminada as perguntas, disseram-me que eu já podia tocar. Por mais incrível que pareça, eu não fiquei muito tímido na hora em que comecei a tocar o Allegro Apassionato. Tive, sim, aquela sensação de um pequeno medo de errar e de achar que a banca não estava gostando de me ouvir. E foi aí que também tive mais outra surpresa: percebi, por estar reparando no rosto da banca o tempo inteiro, que o Joel fez um sinal indicando que estava gostando da minha performance. Isso me agradou bastante. Terminei o Allegro Apassionato e chegou a hora da allemande.

Havia chegado a hora da música que, por mais que fosse mais fácil do que tudo o que eu iria tocar, era o desafio do momento. Respirei e iniciei. As coisas foram caminhando corretamente. Eu não havia esquecido nada dela. Ela era a minha peça do Bach mais trabalhada. Ao mesmo tempo em que eu tocava, eu cometia um erro que um músico não pode cometer: preocupar-se com a técnica no momento da performance. Porém, por sorte, a música fluiu sem erros. Quando parei de tocá-la, senti-me muito aliviado. Muito mesmo! Era como se eu tivesse gozado depois de uma boa foda. Agora, eu já estava pronto para o momento final da prova: a leitura à primeira vista.

Um dos professores deu-me uma partitura com marcações de uma música para eu lê-la. Deram-me 1 minuto para lê-la antes de tocá-la. Era um trecho orquestral fácil, mas não tão fácil. Finalmente, eu o toquei. Terminei a música, agradeci os professores e saí da sala.

Não me lembro se, na hora em que eu estava passando pelo corredor, eu estava alegre, triste, ansioso ou deprimido. Mas o teste havia terminado. Até que enfim havia chegado ao fim! Esse foi, ao lado do teste de entrada para EMESP, meu teste mais significativo. Os 5 minutos de prova pareciam ter durado 50 horas. Minha performance havia sido bem pior do que ela era quando eu a praticava na minha casa. Algumas coisas, entretanto, também me deixaram bem orgulhoso. O Allegro Apassionato era a música mais complexa e exigente que eu havia estudado. O fato de eu ter conseguido tocá-la e de, por meio dela, trabalhar minha expressão como nunca havia feito, me deixara muito feliz. Era a minha primeira peça virtuose.

Passaram-se alguns dias. As férias já haviam acabado e minhas aulas na escola e na EMESP já haviam retornado. Sai o resultado do teste: eu havia passado como segundo ou terceiro suplente.

Isso não me deixou triste, porém, também não me deixou feliz. A chance de eu ser chamado para a estadualzinha era pequena. Mas, lembrei que meu amigo Gabriel Neves havia sido chamado para jazzinha tendo passado como suplente. Ora, por mais que a jazzinha não fosse o que eu estava realmente interessado, ela seria legal e preencheria minha necessidade financeira. Okay, jazzinha, você agora é onde eu quero ser chamado!

Poucos dias se passaram. Eu estava voltando da EMESP para a minha casa, aguardando o trem na estação Julio Prestes quando recebo um telefonema. Alguns dias antes, eu já estava com a expectativa de ser chamado para a jazzinha por telefone. Então, toda vez que o telefone de casa tocava, eu o atendia. Minha família achava isso muito engraçado, porque, normalmente, eu não atendia o telefone por situação alguma, eu era muito preguiçoso quanto a isso. Olhei para o visor do celular. Era um número que eu desconhecia. Pelos dígitos iniciais, quem o usava parecia pertencer a algum lugar da cidade de São Paulo. Será que era alguém me convidando para fazer parte da jazzinha?

Continua na próxima postagem.

Isaias Bispo de Miranda – 22 de fevereiro de 2015

Parte 1: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/02/15/a-jazzinha/

Parte 3: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/03/01/a-jazzinha-a-ligacao/?preview=true&preview_id=80

A jazzinha – como tudo começou

Das orquestras e grupos musicais que eu já toquei, um deles foi o mais marcante: a Orquestra Jovem Tom Jobim. Era um grupo excelente. Foi onde conheci uma parte significativa dos meus mais caros amigos e onde muito desenvolvi minha técnica violoncelística, portanto, foi onde minha formação como artista mais foi trabalhada. Porém, como tudo começou?

Em 2010, ano em que entrei na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP), ouvi, pela boca de um amigo meu chamado Gabriel Neves, a primeira coisa acerca de uma orquestra da escola, intitulada ”jazzinha”. Ele havia me dito que, por não ter sido aprovado para o teste da ”estadualzinha” (Orquestra Jovem do Estado), que era a orquestra mais cobiçada pelos jovens músicos da EMESP, e como tinha passado como suplente, havia sido chamado para integrar o naipe dos violoncelos da jazzinha. Ele aceitou a vaga. Mas saiu porque o repertório era ”treta” e a música popular não era lá seu gosto musical. Foi assim que eu ouvi falar, pela primeira vez, sobre a jazzinha.

Fiquei interessado na orquestra, mas como segunda opção. Eu também não gostava de música popular e, assim como a maior parte do pessoal da escola, também queria uma vaga na estadualzinha. Ela era uma orquestra jovem focada no repertório clássico, erudito. O regente, João Maurício Galindo, era renomado. Os músicos eram um pouco mais avançados musicalmente do que os da jazzinha. Então, resolvi que esse seria o grupo que eu iria entrar. E, caso não passasse no teste, que pelo menos eu entrasse na jazzinha. Assim, eu poderia, além de tocar num grande grupo, custear meus gastos pessoais, já que eu era totalmente bancado pelos meus pais.

Chegada as férias de 2010, ou seja, quando eu estava sem a necessidade de assistir as aulas do ensino médio e da EMESP, comecei a me dedicar com muito mais afinco ao violoncelo. Eram horas e mais horas de estudo. Fazer tudo isso era extremamente prazeroso. Eu fazia mais de 1 hora diária só de escalas e arpejos, mais de 2 horas de estudos técnicos e, no restante do tempo, eu me dedicava a tocar e estudar músicas. Não fazia isso pensando na estadualzinha, mas sim na possibilidade de tocar bem, de tocar os concertos fodas que eu ouvia por horas, de ter o domínio do repertório que havia inspirado-me a tocar violoncelo.

Finalmente, o período de inscrições para os grupos jovens (essa era a forma que os grupos musicais da EMESP eram chamados pela própria instituição) iniciou-se. Tratei de inscrever-me. Iria tocar o Allegro Apassionato de Saint-Saens. Acabei ficando com um pouco medo, mas passou-se rápido. Mas, um dia antes do teste, passei por um conflito interno que poderia fazer toda a diferença na minha vida como músico.

Ser músico como profissão significava estar largando a vida de músico na igreja. Eu era religioso e foi na igreja o primeiro grupo musical onde toquei. Lá era onde estavam meus primeiros professores de violoncelo – Carlos e Renato -, onde estavam as pessoas mais importantes da minha vida, como os meus pais e amigos. Segundo o regulamento da igreja, os músicos não podiam fazer parte de outros grupos musicais. O dom da música deveria ser dedicado exclusivamente para Deus. Portanto, entrar num grupo que visava preparar os jovens músicos para a vida artística, por isso, para a vida profissional, era o mesmo que ter de largar minha vida de músico na igreja.

Decidi, algumas horas antes do teste, que eu o faria e que, caso fosse aprovado, aceitaria a vaga. Mas isso não significou o abandono da vaga de músico na igreja. Achei uma brecha. Não falaria para os irmãos da igreja que eu fazia parte de outra orquestra. Tão simples! De certa forma, eu já sabia que, perante Deus, eu não estava pecando. Sabia que essa era uma norma da igreja enquanto instituição que visa intermediar o homem perante Deus, portanto, ela não era o próprio Deus. Também sabia que as normas variavam com o tempo. Deus? Por que ele se importaria com algo tão trivial quanto isso? Resolvi dormir e, assim que acordasse, iria para o teste.

Acordei. Era por volta das 6 horas da matina. Preparei meus documentos, instrumento e repertório. Fui para o teste. Cheguei na EMESP e uma pequena ansiedade também chegou comigo. Achei a sala de aquecimento. Toquei algumas escalas e… foi nessa hora que percebi que havia esquecido algo muito importante: não tinha estudado uma música de livre escolha. Para o teste, eu teria de tocar uma peça de confronto – no meu caso, Allegro Apassionato -, uma música lida à primeira vista e uma peça de livre escolha. Comecei a pensar que meu teste seria prejudicado, que eu não seria aprovado. Adeus, estadualzinha! Jazzinha, um abraço! Mas tive uma ideia que poderia mudar o rumo das coisas…

Continua na próxima postagem.

Isaias Bispo de Miranda – 15 de fevereiro de 2015

Continuação:

1: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/02/22/a-jazzinha-o-teste/

2: https://isaiasbispodemiranda.wordpress.com/2015/03/01/a-jazzinha-a-ligacao/?preview=true&preview_id=80

Com os oprimidos não pode?

Centro de uma metrópole. Dia normal de trabalho. Paloma, uma garota de 17 anos, está caminhando junto de seu pai num edifício empresarial. Ela só estava lá porque seu trabalho da escola era relatar um dia de trabalho de um parente.

Paloma observa os funcionários trabalhando. Observa mais eles do que seu pai. O primeiro, é um senhor que aparenta ter 40 anos de idade. Ele é porteiro do edifício e, por razões óbvias, foi o primeiro que ela viu. O segundo é um rapaz, por volta de uns 25 anos, magricela e com olhar atento, estava limpando a primeira parte do hall de entrada.

Quarto andar do edifício. Paloma está acompanhando seu pai em direção à uma porta grande, de onde sai e entra algumas pessoas uniformizadas. Lá, era um local onde uma grande equipe de faxineiros se reuniam e, como seu pai era o supervisor geral deles, ele a estava levando para lá.

Entram na sala. Paloma observa uma característica comum dos funcionários, além de estarem vestidos de uniforme: eram negros. Então, pergunta ao seu pai:

– Pai, aqui não deveria ter cotas para brancos?

Se alguém alinhado à esquerda lesse isso, muito provavelmente diria que há um humor de mau gosto e, além disso, que poderia incitar o racismo, se é que já não é racista por si próprio. Não podemos fazer humor com os oprimidos: eis uma frase que resume bem as críticas que seriam levantadas.

O que a esquerda esquece nessa hora é que, no humor, assim como nas artes e na literatura, o que vale é a interpretação e não a compreensão.

Esse texto pode muito bem ser interpretado como uma captura da realidade social brasileira, ou seja, onde a cor da pele está fortemente relacionada à classe social do indivíduo. Uma pessoa inteligente, que fez um bom ensino médio, pode muito bem interpretar dessa forma. Nesse sentido, o texto pode ser lido como simpático à uma luta histórica da própria esquerda: a da igualdade racial.

É um absurdo ter de dizer isso para homens barbados. Para pessoas que já passaram pelas aulas de literatura. Para pessoas que trabalham com literatura! Porém, é mais absurdo ainda um humorista ter de explicar sua piada para não ser preso.

Quando pessoas, como a cartunista Laerte, dizem que o humor que atinge os oprimidos deve ser vetado, elas estão flertando com a direita brasileira dos tempos de ditadura. Todos sabemos que havia, sim, justificativas sociais para a censura, e não somente porque os militares eram facínoras sedentos de sangue. Parece que os mais de 20 anos de cercamento da liberdade não ajudaram a esquerda a refletir bem sobre a censura. Gente assim se daria bem com o estalinismo.

Tive um professor de história que sempre dizia que ”a censura é míope”. Ele tinha razão. Deixo um desafio: essa minha ”historinha” é de direita ou de esquerda?

Isaias Bispo de Miranda – 12 de fevereiro de 2014

 Créditos da fotografia: Rayane Vieira – http://aluaminguante.tumblr.com/